Idarci Esteves
Na véspera de cada Natal era coisa certa. Mamãe começava a se afobar, para fazer o seu famoso pudim de coco. Ele seria servido no almoço da família no dia vinte e cinco.
Como não me lembrar do pudim? Na cozinha ficávamos, ela e eu, falando sobre nada e tudo. De perto, eu só observava, não podia ajudar e nem dar palpite. Já viu um doce que demanda um ritual intenso? Pois é. O pudim demandava.
Primeiro, ela colocava em uma panela grande o açúcar, água, casca de limão, canela e cravo, nas proporções corretas para fazer a calda. Tinha que ficar no ponto de fio brando, exato. Não podia passar e nem faltar. Assim, o pudim ficaria, depois de pronto, belíssimo, com a calda minando pela textura assada. Esse era um dos pulos do gato.
Depois, havia o tempo de espera para a calda esfriar. Para ganhar tempo, ela ia até o jardim colher flores bico-de-papagaio para fazer a ornamentação da mesa. Não permitia que nós, filhos, fizéssemos isso, porque, apesar da beleza, a planta era tóxica.
Calda pronta, mamãe colocava nela a manteiga derretida, colheres cheias de farinha de trigo e um prato de coco ralado. Era coco fresco, depois de passar por todas as etapas de preparo até chegar a do ralo.
E os ovos? Uma dúzia, sem dó nem piedade, para completar a receita. Quebrava um a um em uma vasilha e misturava com as mãos, para que ficassem pedacinhos de gema no meio da clara mal batida. Depois de assado, o pudim ficaria um primor com as pequenas lascas de gemas, brilhando no meio da massa e da calda que minava dela. Esse era mais um pulo do gato.
No pudim ainda no forno, mal assado, com dedos leves e suaves, mamãe enterrava nele pequenos pedaços de doce de figo. Era o último pulo do gato.
Só desenformava no dia seguinte. Aí, a fisionomia dela revelava a satisfação da artista com o resultado de sua arte. Nada dizia, afinal, falar o que com a comprovação visível da obra realizada?
A estas alturas, o céu já havia baixado para dentro de nossa casa - um abuso de delícias.
No dia vinte e cinco, mais do que o pernil assado, ma-ra-vi-lho-sa-men-te temperado por ela, havia a inigualável farofa de banana da terra e outras iguarias que lotavam a grande mesa oval da copa. O pudim era o grand-finale gastronômico da reunião festiva.
Era, sem nenhuma dúvida, a doçura amorosa de mamãe, postada como sobremesa, alongando entre os familiares o tempo que une as fronteiras entre Deus e humanos no dia de Natal.