Trajetória da Vida


Idarci Esteves

Enquanto aprecio o vinho que pedi em uma cantina italiana, comecei a refletir sobre uma palavra que ouvi de uma pessoa da mesa ao lado – Currículo.
Já afastada do trabalho ativo, não pude deixar de pensar nesse algoz, objeto de minhas atenções profissionais por tantos anos. Sem nada mais para fazer, decidi pesquisar sobre ele, embora esse terreno já me fosse familiar. Li que tem o sentido de trajetória. Portanto, é a trajetória da vida profissional.
Creio ser meu dever abalar algumas certezas. Na prática, elas não seguem a lógica pretendida nos setores de relações públicas responsáveis pelas contratações. Garimpam candidatos talentosos, raciocínio lógico, conhecimentos transferíveis, confiáveis, habilidosos em fazer networking – menina dos olhos de empregadores.
Minha vida profissional permitiu-me conhecer colegas com currículos invejosos. Mas, cansei-me de assistir a reações constrangedoras no ambiente de trabalho, indicando donos ou donas dos currículos brilhantes comportando-se como um zero à esquerda, quando se tratava de equilíbrio emocional e outras situações adversas. O brilhantismo da experiência de vida mostrada no currículo, contrastava com a do convívio com as diferenças humanas e abertura para compartilhamentos.
A esta altura de meus pensamentos, o garçom Geraldo perguntou-me se estava gostando do vinho e se eu precisava de algo mais.
– Preciso de mais tempo nesta mesa, Geraldo. Estou com algumas ideias e preciso colocá-las no papel. Você tem um bloquinho para me arrumar?
Mais que solícito, ele trouxe o bloquinho e eu, já bastante motivada pelo vinho e pela paisagem da lagoa que via pela janela, passei para o papel as minhas reflexões.
Se currículo é a trajetória de uma vida, por que só relatar nele competências importantes para o trabalho, enquanto que outras, fundamentais para o ambiente de trabalho, nem sequer são mencionadas?
Deveria interessar ao futuro empregador a essência do candidato: seu sentido de vida; a forma como cultiva os afetos, as conexões autênticas; a maneira de lidar com conflitos diários.
O rei macedônio Alexandre - O Grande, escreveu há milênios: “Se conseguirmos nos conhecer a fundo, saberemos compreender os outros e a realidade que os rodeia.”
Tais questões avaliariam o candidato de maneira mais profunda. São questões importantes para o conhecimento da essência dos valores, propósitos e atitudes, que mais ou menos dias, acabarão por se manifestar no cotidiano de trabalho.
Ah! Chega! Já pensei demais. Vã filosofia!
O garçom me olha, desvia os olhos e volta a me olhar. Divirto-me com isso. O tempo passou depressa, como sempre, ele passa... Vou pedir a conta. Faço um sinal.
– Geraldo, por favor! – Aí vem ele.

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Idarci E. Lasmar

E-mail: idesteves70@gmail.com

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