Idarci Esteves
Esta noite, minha companheira de quarto chorava muito, queixando-se de dores. Chamei a cuidadora e logo a levaram para outro lugar.
De manhã, antes de sair para o café, Dr. Henrique Green, médico clínico desta casa, entrou no meu quarto e perguntou:
– Como está se sentindo? Ainda um pouco assustada com o acontecido com Dona Bete, à noite? — falou, quase afirmando o que eu deveria estar sentindo.
– Estou bem, doutor. Apenas uma dor nas costas quando respiro e um pouco de cansaço.
Desviei o olhar para a janela e procurei por flores e folhagens. Olhei e olhei. Então, perguntei-lhe, mudando de assunto:
– Já estamos na primavera, doutor?
Ele me observou sem entender a pergunta. Nada respondeu. Pareceu preocupado.
– O que houve com a árvore que havia ali? – perguntei-lhe.
Ele virou o rosto em direção à janela e disse que funcionários da prefeitura a tinham cortado. Ela estava condenada, doente e poderia cair.
— O joão-de-barro estava construindo sua casinha nela. O que fizeram com ele?
Nenhuma resposta, apenas o balançar de cabeça, como dizendo não sei.
Aceito a resposta. Pedi-lhe papel e caneta para escrever coisas. Gosto de escrever. Sempre escrevo quando minha memória permite que eu dê forma a meus pensamentos. Quando isso fica difícil, então, eu desenho, revelando o mundo que vejo naquelas horas.
Tudo neste lugar e nesta casa é novo para mim. Tem paredes claras, corredores, muitas salas, mesas e cadeiras, jardins bem cuidados e movimento de gente vestida com roupa cor de palha.Que lugar é este que me torna tão estranha a mim mesma? Há um desassossego me perturbando. Identifico algumas explicações: quero me lembrar de minha história. Será que as pessoas que me atendem sabem que tenho uma história? Que saí de meu cotidiano e vim pra este lugar que deixa meu peito apertado, pequeno? Onde está o meu povo? Aos poucos, foram escasseando em minha casa até ficar, apenas, Jaci e eu.
Aceito pensar que antes era difícil para a minha gente estabelecer relações comigo. Havia um tempo de demoras dentro de mim incompatível com a rapidez e eficiência exigidas, dificultando as esperas. A vida foi ganhando camadas que contrastavam com a impaciência das pressas e vontades. Eu me sentia cada vez menos esclarecida sobre mim para administrar os problemas que me afetavam.
Vieram me chamar para ir ao refeitório tomar o café da manhã. O café, pão, leite e uma fruta estão arrumados na mesa, à altura da mão. É o suficiente. Sinto que há uma rotina à qual devo me conformar. Ressoa em mim uma recomendação: Sossega! Sou predileta de Deus!
Os sons no meu entorno, feitos de algumas vozes apenas murmuradas e de outras, pesadas e agitadas, são um desafio a ser vencido. Baixo a cabeça para que não vejam meu olhar assustado.
“Quem me roubou de mim?”. Vem à minha lembrança este título de um livro que li há alguns anos. Engraçado! Como estou me reconhecendo nele. Às vezes sinto que roubaram minha identidade. Sinto-me incapaz de pensar como agora, perco minha luz. Tranco-me por dentro, como se fosse cativa, transitando por territórios desconhecidos, até que me reconheça novamente.
A enfermeira gentil veio perguntar se quero voltar para o quarto ou ficar por aqui mais um pouco. Quero ficar e olhar a rua, as árvores da rua onde há passarinhos cantando. Há espaços dentro de mim que estão reservados para eles. Enquanto cantarem para mim, retardarei as raízes do caos destruidor.