A força da mulher na música


Idarci Esteves

Nesta crônica pretendo abordar a música como expressão de resistência e instrumento de empoderamento, indo além da denúncia das violências masculinas em relação as mulheres. A referência as violências no plural, está apoiada em Bortoli; Zucco (2016), por envolverem um repertório de ações e tipos de manifestações das mais visíveis e letais, às mais invisíveis e sutis.

Um breve retrato da realidade
Ana Rita dos Santos, autora do poema apresentado, é estudante em João Pessoa (PB). Jovem, conhece gritos impressos nas paredes, vive com olhos que viram demais.
Uma mulher que grita na esperança de viver
Na esquina da minha casa
O medo bate a minha porta
da janela vejo a rua
e muito sangue a minha volta
Vejo choro, vejo guerra
machismo por toda parte
assédio tomando conta
é mais um homem covarde
Pra que lado olho agora?
quem será que vai me ouvir?
só por causa de uma saia
a culpa toda vem pra mim?
Cultura do machismo
que me tira a existência
pela morte de mais uma
todas gritam RESISTÊNCIA.

Ana Rita constrói narrativas de medo corporificado no cotidiano _ ele bate na porta (...) muito sangue a minha volta; do contexto machista violento e opressor _ assédio, covardia _ em uma estrutura persistente, que penetra lugares, programas de TV e as roupas das mulheres; da culpabilização da vítima_ por causa de uma saia a culpa vem toda pra mim? Mas a palavra final do poema, em letras maiúsculas _ RESISTÊNCIA _ cria solidariedade coletiva, um símbolo de vida e luta.

A palavra Resistência é mais que um clamor. É uma afirmação de que mulheres se erguem, transformando dor em potência, enfrentando, por vários meios, a cultura do machismo como norma de vida.

A atuação feminina e a música
Registra-se a entrada de mulheres brasileiras no meio musical desde o século XIX, mas, limitadas por normas sociais e confrontadas por desigualdades de gênero.
A historiografia musical tradicional omitiu a atuação de compositoras e intérpretes da importância de Chiquinha Gonzaga e Antonietta Rudge. Elas romperam barreiras e, até hoje, não tiveram o devido reconhecimento.

Precisa ser lembrado o importante papel dos movimentos feministas do Brasil, a partir da década 1970. Com o fortalecimento das lutas por igualdade de gênero, cantoras e compositoras passaram a incorporar em suas canções temas como: liberdade sexual, empoderamento, autonomia, valorização da mulher, feminicídio.

Na complexidade dos desafios enfrentados, a música ocupa papel destacado como protesto a um padrão estrutural e histórico a ser desconstruído. São vozes que ecoam nas ruas, redes sociais, mídias, palcos, pressionando por mudanças. Abrem caminhos para o debate público, ampliando a consciência social.

Mais que música – ato político e coragem
Torna-se importante o resgate de compositoras e cantoras que ostentaram e ostentam o engajamento nas lutas das violências contra as mulheres, além de outros temas. Uma das vozes mais potentes foi a de Elza Soares: Deu voz irônica e combativa as mulheres que denunciavam seu agressor; Rita Lee, destacou-se pelas letras transgressoras, celebrando a liberdade feminina, estimulando empatias.

Sobressaem atualmente: MC Carol & Carol Comka: Funk e rap se unem, narrando empoderamento feminino e violências domésticas; Tulipa Ruiz: Questiona relações abusivas e desproporções dos afetos; Ana Canhas: Denuncia abusos; Karina Buhr: Com pegada punk, denuncia abusos e cultura do silêncio; Flaira Ferro: Pernambucana, luta por respeito e igualdade; Kell Smith: Aborda feminismo, saúde mental.

Cantoras do feminejo, ocupam espaços dominados pelos homens. Sobressaem: Marilia Mendonça: Teve postura pública de apoio as mulheres vítimas de violência, confrontou o desrespeito e a traição; Maiara & Maraísa: Abordam relações desequilibradas e culpa imposta as mulheres; Lauana Prado: Posiciona-se sobre o rompimento de padrões machistas; Naiara Azevedo, canta sobre violência doméstica, independência emocional e financeira; empoderamento.

Enfim, as violências contra a mulher são persistentes problemas sociais, afetando os direitos fundamentais e a dignidade humana. Com este texto, espera-se contribuir para difundir a música como espaço feminino de resistência e afirmação identitária.

voltar

Idarci E. Lasmar

E-mail: idesteves70@gmail.com

Clique aqui para seguir esta escritora


Site desenvolvido pela Editora Metamorfose